O WiE BR – Women in Energy Brasil - vem alçando voos altos. A ação do CIGRE-Brasil, que promove uma equidade dos gêneros no setor elétrico - em reconhecimento às especialistas atuantes – em sua nova gestão veio com uma estrutura formada por um time de peso. Um desses nomes é a secretária de engajamento, Camila Falcoeiras, que tem se destacado pela sua dedicação incondicional ao comitê.
Pelos caminhos trilhados
Camila é engenheira eletricista, técnica em eletrotécnica e mestranda. Construiu sua trajetória profissional passando pelos setores industrial, tecnológico e energético, consolidando sua atuação no ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), onde atua há mais de 12 anos como Engenheira de Operação em Tempo Real Sênior.
Além da experiência técnica, Camila também desenvolve iniciativas voltadas à mentoria, diversidade, representatividade e desenvolvimento de pessoas, contribuindo para a construção de ambientes mais inclusivos e inspiradores no setor de energia.
Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a transformação, pelo fortalecimento da liderança feminina e pela criação de caminhos para que mais mulheres ocupem espaços técnicos, estratégicos e de liderança.
Não por menos que, recentemente, recebeu o prêmio do Energy Summit Global – uma iniciativa que visa reconhecer profissionais que impulsionam a transformação do setor de energia.
Em entrevista ao CIGRE-Brasil, ela contou um pouco mais sobre seus desafios e os conselhos para quem está dando seus primeiros passos.
Confira e se deleite em uma leitura que inspira a todos (principalmente a todas) nós – de quem almeja continuar abrindo caminhos e contribuindo para o desenvolvimento do setor elétrico, promovendo inovação, diversidade e formando novas lideranças.
CB: O que motivou a sua escolha e desde quando pensou em integrar o Setor Eletroenergético?
Curiosamente, eu não escolhi o setor elétrico de forma planejada. Aos 13 anos, quando ingressei na FAETEC de Nova Iguaçu para cursar o Ensino Médio Técnico, fui muito influenciada pela minha mãe.
Na época, por ser muito nova, eu só podia estudar perto de casa, e a FAETEC que era próxima a minha casa, oferecia apenas quatro cursos técnicos: Administração, Edificações, Eletrônica e Eletrotécnica. Juntos, fomos eliminando as opções. Administração estava em alta naquele momento e minha mãe acreditava que o mercado poderia ficar saturado. Edificações não despertava meu interesse, principalmente por exigir habilidades com desenho, que nunca foram meu ponto forte. Restaram Eletrônica e Eletrotécnica.
Minha mãe me aconselhou a optar por Eletrotécnica porque meu pai e meus tios trabalhavam em indústrias. Ela acreditava que essa formação me daria mais oportunidades de inserção no mercado de trabalho e, caso meu pai enfrentasse alguma dificuldade profissional, eu teria uma profissão para ajudá-lo e contribuir com a família.
Fizemos um combinado: se, ao final dos três anos do curso, meu pai não precisasse da minha ajuda financeira, eu teria liberdade para escolher qualquer outra profissão que despertasse meu interesse.
Mas aconteceu algo que ninguém imaginava: eu me apaixonei pela Eletrotécnica.
Foi durante essa formação que descobri minha afinidade com o setor elétrico e percebi que a energia vai muito além da tecnologia. Ela transforma vidas, impulsiona o desenvolvimento do país e conecta pessoas.
Essa descoberta me levou a cursar Engenharia Elétrica e, posteriormente, a construir minha carreira no setor eletroenergético. Hoje, atuo no Sistema Interligado Nacional, uma atividade que exige responsabilidade, visão sistêmica, tomada de decisão e trabalho em equipe.
Quando olho para trás, vejo que uma escolha feita aos 13 anos, motivada pelo cuidado e pela visão da minha mãe, acabou definindo a minha trajetória profissional. Hoje, tenho a convicção de que encontrei meu propósito e sinto orgulho de contribuir diariamente para a confiabilidade do sistema elétrico brasileiro.
CB: Quais os desafios encontrados ao longo da sua trajetória e o que a fez prosseguir?
Construir uma carreira em um ambiente historicamente predominantemente masculino trouxe desafios técnicos e, muitas vezes, a necessidade de provar continuamente minha competência.
Como mulher negra, nascida e criada na Baixada Fluminense, também enfrentei desafios relacionados à representatividade. Em muitos momentos, fui a única mulher ou a única mulher negra em determinados espaços.
O que sempre me impulsionou foi acreditar que competência, dedicação e preparação são capazes de abrir caminhos. Também tive o privilégio de encontrar homens e mulheres que confiaram no meu trabalho e me incentivaram a crescer.
Hoje, procuro retribuir esse apoio atuando como mentora, incentivando outras mulheres e compartilhando oportunidades para que mais pessoas possam construir suas próprias trajetórias.
CB: Quais pessoas e por qual motivo foram de fundamental importância ao longo de sua trajetória profissional?
Minha família sempre foi a minha base. Foi ela que me ensinou o valor do estudo, da perseverança e da honestidade.
Ao longo da carreira, tive líderes, colegas, mentores e mentoras que confiaram em mim, me desafiaram e me incentivaram a enxergar possibilidades que, muitas vezes, eu mesma ainda não conseguia ver.
Também considero fundamentais as mulheres que abriram caminhos antes da minha geração. Graças à coragem delas, hoje ocupamos espaços que antes eram muito mais difíceis de alcançar.
Essa trajetória reforçou em mim a importância de fazer o mesmo pelas próximas gerações.
CB: Como conheceu e o que a estimulou a participar do CIGRE-Brasil?
Conheci o CIGRE-Brasil por meio da minha atuação no setor elétrico e da busca constante por atualização técnica e troca de experiências com profissionais da área.
Um momento muito marcante aconteceu durante o SENOP 2025, quando um colega de trabalho e grande amigo, Renan Felipe dos Santos, atualmente Coordenador de Operação em Tempo Real no ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico, me apresentou à Gabriela Desirê, Coordenadora do Women in Energy (WiE-Brasil). Na ocasião, o Renan comentou que nós duas atuávamos na Operação em Tempo Real do Sistema Elétrico e destacou que a Gabriela havia sido a primeira mulher a exercer essa função. Segundo ele, nossas trajetórias e propósitos tinham muito em comum e nós precisávamos nos conhecer.
Camila atuando na Operação em Tempo Real - no ONS
Sou muito grata ao Renan por ter promovido esse encontro. Pequenos gestos como esse têm o poder de transformar trajetórias e mostram a importância de construir redes de confiança e colaboração ao longo da carreira.
Ainda durante o SENOP, a Gabriela me convidou para integrar o Comitê Women in Energy (WiE-Brasil). Aceitei o convite com muita alegria e, desde então, tenho a honra de atuar como Secretária de Engajamento. Sou profundamente grata à Gabriela pela confiança e pela oportunidade que me proporcionou. Esse convite representou um marco importante na minha trajetória, pois me permitiu contribuir de forma ainda mais ativa para iniciativas voltadas ao fortalecimento da participação feminina no setor elétrico.
Desde então, passei a enxergar o CIGRE-Brasil não apenas como uma referência técnica mundial, mas também como um espaço de colaboração, desenvolvimento de lideranças e construção de conexões que impulsionam a inovação, a diversidade e o fortalecimento do setor de energia
CB: Conte-nos um pouco sobre as atividades do Women in Energy (WiE-Br) e sobre a sua atuação dentro do comitê.
O Women in Energy Brasil é uma iniciativa do CIGRE-Brasil que busca ampliar a participação feminina no setor elétrico, promovendo desenvolvimento profissional, networking, compartilhamento de conhecimento e visibilidade para mulheres que atuam na área.
Como Secretária de Engajamento do Women in Energy (WiE-Brasil), tenho a oportunidade de contribuir para o fortalecimento da nossa comunidade, promovendo iniciativas de integração, comunicação e incentivo à participação de mais mulheres nas atividades do comitê. Essa atuação tem sido extremamente enriquecedora e reforça diariamente meu compromisso com o desenvolvimento de pessoas, a representatividade e a construção de um setor elétrico cada vez mais diverso, colaborativo e inovador.
Acredito que o WiE vai muito além de um espaço de networking. É uma rede de apoio, aprendizado e inspiração, onde profissionais compartilham experiências, desenvolvem lideranças e ajudam a construir um setor elétrico mais diverso e inovador.
Na principal ação do WiE-BR:
o Fórum de Mulheres do CIGRE-Brasil, sempre realizados durante o SNPTEE, o maior evento do Comitê Nacional Brasileiro.
Na ocasião, a temática abordada foi a "A Batalha das Correntes".
CB: Recentemente você foi reconhecida na categoria Women in Energy na premiação do Energy Summit Awards 2026, o maior evento do MIT no mundo. O que esse reconhecimento representa para você e para a sua trajetória no setor elétrico?
Receber este prêmio do Energy Summit Awards 2026, na categoria Women in Energy, foi um dos momentos mais marcantes da minha trajetória profissional. Recebi esse reconhecimento com muita gratidão, emoção e, principalmente, com um grande senso de responsabilidade.
Mais do que uma conquista individual, esse prêmio representa o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação, aprendizado contínuo e o compromisso de contribuir para um setor elétrico cada vez mais confiável, inovador e diverso.
Como mulher negra, nascida e criada na Baixada Fluminense, alcançar esse reconhecimento tem um significado ainda mais especial. Ele reforça que talento, preparo e perseverança podem abrir caminhos e, ao mesmo tempo, inspira outras meninas e mulheres a acreditarem que também podem ocupar espaços de protagonismo no setor de energia.
Também vejo essa conquista como resultado de uma caminhada construída ao lado de muitas pessoas e instituições que acreditaram em mim e contribuíram para o meu desenvolvimento. Sou muito grata ao ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico, à ABME - Associação Brasileira Mulheres da Energia e ao Women in Energy do CIGRE-Brasil, aos meus colegas, mentores, mentoradas, amigos e à minha família, que sempre estiveram ao meu lado.
Recebo esse prêmio como um incentivo para continuar trabalhando com excelência técnica, promovendo o desenvolvimento de pessoas e contribuindo para fortalecer a representatividade feminina no setor elétrico. Se a minha trajetória puder inspirar outras mulheres a acreditarem no seu potencial e a ocuparem os espaços que desejam, esse reconhecimento terá um significado ainda maior.
Premiação Energy Summit Global -
Reconhecimento aos profissionais que impulsionam a transformação do setor de energia
CB: Quais oportunidades e aprendizados o reconhecimento no Energy Summit Awards trouxe para a sua trajetória profissional?
O reconhecimento no Energy Summit Awards foi um marco muito importante na minha trajetória, não apenas pela honra de receber a Prata na categoria Women in Energy, mas também pelas oportunidades que surgiram a partir dessa conquista.
O prêmio ampliou minha visibilidade no setor e reforçou o trabalho que venho desenvolvendo ao longo dos últimos anos em prol da excelência técnica, da liderança e da valorização da participação feminina no setor de energia.
Um dos reflexos mais significativos desse reconhecimento foi o convite para assumir a Vice-Presidência da Associação Brasileira de Mulheres da Energia (ABME), uma instituição que desempenha um papel fundamental no fortalecimento da liderança feminina no setor energético. Recebi esse convite com muita honra, gratidão e senso de responsabilidade.
Mais do que um reconhecimento individual, enxergo essa nova missão como uma oportunidade de ampliar meu impacto, contribuir para o desenvolvimento de mais mulheres, fortalecer redes de colaboração e continuar trabalhando por um setor de energia cada vez mais diverso, inovador e inclusivo.
Acredito que cada conquista traz consigo uma responsabilidade ainda maior: inspirar, compartilhar conhecimento e abrir caminhos para que outras pessoas também possam crescer e transformar o setor.
CB: Como recebeu esse convite e quais são suas expectativas para essa nova missão?
Assumir a Vice-Presidência da Associação Brasileira de Mulheres da Energia (ABME) é uma honra e uma grande responsabilidade.
Recebi esse convite com muita alegria e gratidão, especialmente por representar o reconhecimento de uma trajetória construída ao longo dos anos por meio do trabalho, da dedicação e do envolvimento com iniciativas voltadas ao desenvolvimento do setor de energia e da liderança feminina.
Vejo essa nova missão como uma oportunidade de ampliar ainda mais minha contribuição para o fortalecimento da participação das mulheres no setor energético, promovendo conexões, desenvolvimento de lideranças, compartilhamento de conhecimento e incentivo às futuras gerações.
Ao lado da presidente, da diretoria e de todas as associadas, espero contribuir para que a ABME continue sendo uma referência na promoção da diversidade, da inovação e do protagonismo feminino no setor de energia.
Assumo esse desafio com entusiasmo, espírito colaborativo e a convicção de que liderar também significa servir, inspirar e criar oportunidades para que outras pessoas possam crescer
CB: Quais conselhos você daria para as profissionais mulheres que também desejam trilhar esta carreira?
Meu principal conselho é que nunca deixem de acreditar na própria capacidade.
Invistam continuamente em conhecimento técnico, desenvolvam habilidades de comunicação e liderança e não tenham receio de ocupar espaços.
Também recomendo buscar redes de apoio, participar de associações e iniciativas como o CIGRE, o Women in Energy e a ABME, ajudam construir conexões e aprender com profissionais que já percorreram esse caminho.
Por fim, lembrem-se de que ninguém constrói uma carreira sozinho. Procurem mentores, sejam mentoradas e, quando chegar o momento, tornem-se mentoras também.
Cada mulher que ocupa um novo espaço amplia as possibilidades para as próximas gerações.
CB: Qual legado você espera construir ao longo da sua carreira?
Espero ser lembrada não apenas pelas posições que ocupei ou pelos reconhecimentos que recebi, mas pela capacidade de desenvolver pessoas, construir pontes e contribuir para um setor elétrico mais diverso, inovador e humano. Se, ao olhar para minha trajetória, outras mulheres acreditarem que também podem ocupar espaços de liderança e transformar o setor por meio da competência, da ética e da colaboração, sentirei que cumpri meu propósito.
Mais do que conquistar espaços, quero ajudar a abrir caminhos para que muitas outras pessoas possam trilhar essa jornada.